quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Bienal do Livro 2014 - "Fala sério! #sqn - HQs e mangás" (Cassius Medauar e Heitor Pitombo)

Da esquerda para a direita: Cassius Medauar, Heitor Pitombo e mediador.
No 3º dia da Bienal do Livro foi a vez de acompanhar o bate-papo com Cassius Medauar e Heitor Pitombo sobre HQ's, mangás e o mercado de quadrinhos no Brasil.

O local escolhido para a palestra foi o mirante do Espaço Imaginário que comportava apenas 80 pessoas, ou seja, era bom ficar esperto para garantir os ingressos e não perder a hora.

Entre bancos de papelão que aguentavam hipopótamos e almofadas brancas no chão, estavam o público que, como de costume, saía de tempos em tempos por conta de compromissos, desinteresse ou bexiga nervosa.

Mesmo que particularmente eu tenha achado algumas perguntas sem nexo e desinformadas, outras foram bem esclarecedoras e interessantes.

Atenção, fãs de Magi, este post contém explicações sobre algumas traduções escolhidas pela JBC para o mangá.

História em quadrinhos é um negócio sério!
E bota sério nisso.
Ainda que a população ache que é coisa de criança, o Japão está aí para nos mostrar a quantidade de categorias para todos os gostos e idades que ditam as vendas no mercado japonês.

Um minuto antes do horário previsto, a entrada do público foi liberada. Cada um recebeu um marcador de página da Sailor Jupiter (de Sailor Moon) na entrada e não demorou muito para o bate-papo começar.

Sobre os palestrantes...
-Cassius Medauar é brasileiro, é formado em Jornalismo pela Cásper Líbero, trabalha no mercado editorial há mais de dez anos, tendo passado pelas editoras Conrad, Pixel, Ediouro e Abril. Atualmente é Gerente de Conteúdo da Editora JBC.

-Heitor Pitombo é brasileiro, nascido em 18 de Junho de 1964, carioca, formado em jornalismo, tradutor e estudioso de quadrinhos, participou da organização da Bienal Internacional de Quadrinhos RJ e atualmente tem uma coluna chamada "Comic Riffs" na revista independente "Jukebox". Escreveu o livro 300 Mangás (Editora Minuano) sobre as histórias que foram publicadas no Brasil.

A melhor parte sobre as biografias foi quando o mediador pediu para lê-las de uma "colinha" e Cassius Medauar, brincando, disse: "Pô! Você não decorou?".

Em terra de heróis, vilões e poderes especiais
Não demorou nem um minuto e os dois já estavam recolocando as blusas de frio.
Com um vento razoavelmente gelado passando pelo mirante, os bem agasalhados estavam mais confortáveis.

Equilibrando-me no banco de papelão incrivelmente resistente, tomei notas sobre a palestra que chegou a estourar um pouco o tempo, além de conversas com os palestrantes depois do encerramento.

E O Cão Que Guarda As Estrelas (Hoshi Mamoru Inu) de Takashi Murakami devidamente impresso ao lado do tio místico da JBC.

A primeira pergunta do público foi sobre mercado de RPG, um assunto que não fazia parte da pauta (a não ser que falássemos em quadrinhos inspirados ou adaptados de algum jogo).
Pitombo comentou sobre eventos desse tipo que aconteciam antigamente e tinham um número bem considerável de pessoas reunidas jogando.

Depois disso fomos introduzidos ao mercado nacional de quadrinhos que há vinte anos dispunha de mais quadrinhos americanos (pela Editora Abril) e uma massiva publicação com poucos títulos e muitas tiragens. Enquanto hoje em dia se tem muitos títulos com poucas tiragens.

Cassius explicou que naquela época a distribuição era nacional, o que dava bastante dor de cabeça, seja com atrasos ou encalhe de material. E citou a inexplicavelmente odiada "distribuição setorizada", que é muito mais organizada, porém, que privilegia a região Sudeste, por exemplo.
Sim, já ouvi e li gente xingando a distribuição setorizada pela internet afora.

Heitor trouxe alguns dados de 2011, como a FIQ (evento de quadrinhos em Belo Horizonte) que teve o mesmo público da Comic Con de San Diego (Estados Unidos) e que a revista em quadrinhos mais vendida no Brasil foi a TMJ (Turma da Mônica Jovem) de Maurício de Sousa, que tem tiragens de aproximadamente quatrocentas mil revistas mensalmente.

Segundo Cassius, não houve muita diferença entre quantidade de público consumidor de quadrinhos durante os anos.
Ambos os palestrantes concordaram que falta incetivo do governo na educação, no interesse pela leitura, pois é um mercado com grande potencial.

O público então perguntou sobre o que os quadrinhos têm que incentivam a leitura e a resposta veio por Medauar, com a facilidade do material e a mistura entre texto e arte. "Nos quadrinhos tudo pode", disse ele.

"A massificação dos quadrinhos ainda é menor (aqui no Brasil)", continuou o gerente de conteúdo da JBC.
Pitombo ainda acrescentou que esse tipo de material agrada todas as idades e que hoje em dia as pessoas estão percebendo que não é algo "só para crianças" como persistia na mentalidade da maioria nos anos 90 e início da primeira década dos anos 2000.

Ele também disse que a adaptação de livros para quadrinhos pode facilitar e introduzir a leitura de clássicos, e aqui cito Helena de Machado de Assis lindamente adaptado pelo Studio Seasons, que só adquiri lá na Bienal do Livro 2014 (e ainda não li).

O público perguntou se o aumento de poder aquisitivo incentivou o aumento da leitura de quadrinhos e se as pessoas que leem esse material procuram trabalhar com ele.
Cassius confirmou e comentou sobre a melhora na qualidade dos quadrinhos.
Heitor ainda lembrou que o aumento de poder aquisitivo foi apenas para alguns. E também comparou a seção de quadrinhos nas bancas, dizendo que o espaço para eles diminuiu bastante no decorrer dos anos.

Os dois também falaram sobre marketing/publicidade.
Pitombo que já organizou eventos de quadrinhos, contou que o maior gasto sempre foi com a divulgação e assessoria de imprensa para levar o assunto a lugares onde ele normalmente não estava ou entrava. Enquanto Medauar conta sobre a divulgação de mangás em blogs literários fora do nicho e o cuidado de trazer títulos com histórias, formatos e preços diferentes, dando como exemplo Thermae Romae de Mari Yamazaki e Super Onze de Tenya Yabuno, ambos publicados pela JBC.

O público perguntou ao gerente de conteúdo se ele traria mangás que gosta para o Brasil e mais uma vez Medauar pediu para que a Panini trouxesse Hajime no Ippo de George Morikawa, mangá conhecido por ser extremamente longo, o que o torna inviável para as editoras que trabalham com os quadrinhos japoneses (seja por desinteresse do público por uma série longa, negociações, entre outros fatores). E ele confirmou que sim, que pretende trazer os títulos que gosta. Só não citou nomes, pois alguns deles já estavam em negociação.

O público aproveitou para perguntar se os animes em canais de tv aberta ajudavam as editoras a trazerem as versões em quadrinhos para solo tupiniquim. Cassius novamente confirmou e disse que se os animes tivessem continuado (igual ao boom dos anos 90), com certeza os mangás seriam mais populares.

O mercado está crescendo aos poucos e para estimulá-lo Cassius sugere que as pessoas deem mangás de presente, o que eu também recomendo. Aliás, 21 de Outubro está aí, se quiserem me presentear com mangás, estou às ordens!

Uma moça no público perguntou sobre mangás brasileiros, falando que falta mercado para essas histórias e que as artes "não tem identidade" (copiadas dos modelos japoneses).

Eu sinceramente não acreditei no que estava escutando, afinal, é preciso ser bem desinformado para perguntar algo assim. Existe sim mercado nacional para quadrinhos e não concordo sobre "a falta de identidade" nas artes. Cada um tem um estilo que pode ter sido inspirado em algum material estrangeiro, o que não desqualifica sua arte. Digo isso porque desenho (mal) e achei um tanto deselegante da parte dela.


Sem esquecer dos mangás brasileiros Ledd de J.M. Trevisan (história) e Lobo Borges (arte), Holy Avenger de Marcelo Cassaro, Rogério Saladino, J.M. Trevisan e arte de Érica Awano, o citado anteriormente Helena do Studio Seasons (o mais novo a ser publicado) e, o mais conhecido, Combo Rangers de Fábio Yabu.

Cassius disse que o mercado existe e lembrou que a JBC fez o primeiro concurso do ramo, o Brazil Mangá Awards, cujas histórias vencedoras foram publicadas pela editora na GibiCon deste ano (depois da Bienal do Livro) no Henshin Mangá pelo selo Ink Comics.

Sobre o concurso, o gerente de conteúdo ainda contou que falta auto-crítica aos desenhistas brasileiros, que esperam publicar diversos volumes e ganhar rios de dinheiro, como se o caminho fosse fácil assim. Além de citar cópias descaradas de páginas de determinados mangás famosos e que os roteiros pecavam em ortografia, gramática e formato "começo, meio e fim".


Assim como escritores precisam ser leitores assíduos, desenhistas também precisam. Isso não só melhora seu entendimento de como criar histórias e escrevê-las, ajuda inclusive no aumento do vocabulário.

Medauar ainda contou que a JBC estará na Comic Con Experience com a parte de cosplay e está estudando a participação nos outros dois eventos ligados a Comic Con, que acontecerão no final deste ano (a Comic Con brasileira não tem nada a ver com a de San Diego). Ele explicou depois de ser perguntado sobre o que as editoras esperam desse evento.

"São Paulo é muito carente de eventos (desse tipo)", comentou Pitombo.


A última pergunta do público, já no fim da palestra, foi sobre o que ambos levavam em conta na hora de traduzir os quadrinhos e se já tiveram problemas com autores por conta disso.

"Todo tradutor é um traidor", disse Heitor, usando uma frase italiana. E contou de uma HQ que traduziu uma vez e que era muito fã, que já teve uma versão brasileira antes. No original um personagem falava em rimas, a primeira versão tupiniquim manteve as rimas, porém, sem a tradução correta (a mensagem que o personagem queria passar).

Enquanto Cassius comentou que os autores normalmente não se metem nas traduções e que a editora segue algumas normas de procedimento, procurando o meio termo entre a originalidade e algo que fique compreensível para quem está fora do nicho (não-otakus).

Ele acabou citando o mais recente lançamento da JBC, Magi: O labirinto da magia (que no link tem análises aqui pelo Kimono Vermelho e que também recebeu mais considerações lá no Kimono Amarelo).

Desde absurdos como o mangá não ter nada a ver com As Mil e Uma Noites ou tolices como não aprovarem a tradução de "the labyrinth of magic" para "o labirinto da magia".

O tapa com luva de pelica do gerente de conteúdo na cara da blogueira que vos escreve veio na citação de "Simbária", termo escolhido para o país de Simbad, que gerou descontentamento. E BOTA DESCONTENTAMENTO NA MINHA CONTA, GENTE!

Ele explicou que Sindria (original) vem de Sindbad (leitura japonesa: Shindobaado), e seria algo como "a terra de Sindbad". Aliás, é o país que o personagem fundou na história de Shinobu Ohtaka. Por isso se temos Simbad, nada melhor do que Simbária, certo? (Ainda que tio Cassius tenha sugerido "Simbalândia" durante as discussões da equipe)

Fiquei feliz ao saber que eles não estavam aleatoriamente dando nomes aos bois (fã pensa qualquer besteira quando você o cutuca) e que procuravam adaptar os termos pensando no que a autora queria dizer com aquilo.
Questionado posteriormente sobre a falta de Henshin Online (vídeos feitos pela editora para comunicar novidades ao público) para acalmar os fãs hardcore (como eu), ele contou que as férias da equipe acabaram deixando o cronograma apertado e por isso nada de HO.

Inclusive usaram os nomes aportuguesados para os personagens, tendo então no lugar de "Aladdin", o Aladim, e assim por diante.

Um adendo aqui sobre a atual "polêmica" de Magi, a editora traduziu o Império Kou com seus principais personagens, Ren Hakuei e Ren Hakuryuu, para Império Huang, Lian Bai-Ying e Lian Bai-Long.
Eu recebi a explicação por Twitter pela Renata Leitão (da equipe que trabalha com a obra da tia Ohtaka) e vou repassá-la a quem se assustou quando pegou o terceiro volume.

Como o "Império Kou" é inspirado no império chinês, a editora optou pela leitura chinesa dos ideogramas conhecidos como kanjis e que tiveram sua origem, veja só, na CHINA. Não chorem, porque é verdade. Atesto como neta de japoneses que sou. Do Japão surgiram apenas os silabários: hiragana (ひらがな) e katakana (カタカナ).

Ainda assim, você pode chamar o primo do Zuko (Avatar: A Lenda de Aang de Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko) de Bai-Hakuryuu-Long, ninguém vai te julgar.

P.S.: Judar é Judar mesmo, viu? É uma das grafias (e acho que a correta), a outra é Judal... Mas dizem que você pode chamá-lo de "peste dos infernos" #rindo ou "comedor de pêssego" que dá na mesma.

Todos que fizeram perguntas durante a palestra ganharam um volume de algum mangá publicado pela JBC no final. Além disso, Heitor sorteou duas edições de uma revista em quadrinhos institucional da Prefeitura do Rio de Janeiro sobre a história da música brasileira.

Como não tinha muito tempo de sobra, não pude ficar para falar mais com os palestrantes, contudo, peguei uma conversa interessante enquanto esperava para me desculpar por todo o meu bitching (encheção de saco) durante esses DOIS ANOS DE ÓDIO AO SINHOZINHO MALTA, digo, NURA.
Um adolescente de 16 anos estava tentando conseguir algumas dicas para participar do próximo BMA, seja sobre qual o melhor gênero ou história.
Medauar explicou que ele deve desenhar o que gostar e ir se aperfeiçoando.

Bom, não tem muito segredo, certo? E eu acredito que "dar com a porta na cara" não é o fim do mundo. Todos já perdemos, recebemos vários "nãos" no decorrer da vida, então é só levantar a cabeça, amadurecer o projeto, escutar as críticas e procurar sempre melhorar.

Fecho esta parte do post da palestra com a frase de Cassius Medauar que assino embaixo: "Não compra quadrinho de herói, compra mangá que é mais legal".

Kimono, e os seus problemas com a JBC? Eles foram resolvidos?
Vendo essas fotos tenho vontade de participar daqueles eventos de lançamento de mangá que a JBC faz de tempos em tempos...
Em todo relacionamento temos problemas por causa do gênio dos envolvidos e da falta de diálogo. O que posso dizer é que compreendo melhor a editora agora, vou ter mais paciência com as peripécias dela (hehe) e, é fato, tio Cassius é místico!

Foi muito divertido passar mais de uma hora e meia curtindo a palestra sem ser azucrinada por uma bexiga do tamanho de uma azeitona, sério.
Na de terça feira eu estava começando a pedir para terminar logo ou eu passaria vergonha ali mesmo.

Foi também esclarecedor, porque acho sempre muito bacana debater, argumentar, conversar, para saber quais motivos para tanta divergência entre o público (no caso eu) e a editora. Foi o bastante para mudar o meu pensamento, pelo menos. Acho que o olho no olho ainda resolve muita coisa.

Bom, a série de posts sobre a 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo está oficialmente encerrada. Espero poder trazer tantas outras novidades em 2016 para vocês!

Nos vemos no próximo post! o/

P.S.: É vergonha comemorar aniversário atrasado? O blog fez 3 anos em 22/09, mas eu estava tão loucamente atarefada que nem percebi a falta de amor. hehe Brincadeiras à parte, eu sou aquela pessoa que não sabe dias de aniversários de namoro, casamento, etc. Já basta o de nascimento, certo?

Fonte: Sobre Cassius Medauar: PublishNews - Desenho Online // Sobre Heitor Pitombo: Guia dos Quadrinhos // Sobre mangás: Wikipedia - Todas as outras informações foram dadas durante a palestra

Por Kimono Vermelho (01/10/2014)

2 comentários:

  1. Tive a impressão que o evento citado de grande público deve ter sido o FIQ 2011 de Belo Horizonte não? É o maior evento de HQs da América Latina, e 2011 teve o Mauricio de Sousa criando filas monstruosas para autógrafo.
    Nem acompanho Magi, mas achei legal a explicação sobre adaptações, assunto sempre polêmico.
    No mais achei bem legal essa série sobre a Bienal. Parabéns

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    Respostas
    1. Olá, Murilo!

      Bom, ele tinha dito "Curitiba", mas... obrigada pela correção!!!
      Obrigada pelo comentário!

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