quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Bienal do Livro 2014 - "O papel do escritor brasileiro hoje: ouvi-los ou lê-los?"

Da esquerda para direita: staff, Raquel Cozer, Patrícia Melo, Noemi Jaffe, Cristóvão Tezza e tradutor de LIBRAS.
No 2º dia da Bienal do Livro tive a oportunidade de assistir um ótimo bate-papo sobre o papel do escritor brasileiro atualmente como formador de opinião e não apenas criador de conteúdo. É um ótimo assunto para ser discutido não só com os leitores, como também com os futuros autores.

Afinal, o que vale mais à pena: ser você mesmo ou vestir uma máscara fingindo quem você não é?

Este é um dos ótimos questionamentos que surgiram durante a palestra.

Escrevendo torto em linhas certas
Uma hora da tarde e eu já estava esperando a bilheteria soltar os ingressos, porque se você não se garante acaba ficando sem! Como eu não queria passar por esse constrangimento, esperei com a assistente do blog para eventos até dar a tal meia hora antes da apresentação (como divulgado no site e na revista com a programação).

A fila andava rápido e era razoavelmente curta. Também não tivemos muitos problemas para entrar.

O Salão de Ideias era um local de um bom tamanho, que acomodaria já não me recordo quantas pessoas e prefiro não chutar para a lua. O fato é que tinha bastante gente e no início da palestra poucos lugares ficaram vazios.
Com o tempo as pessoas foram saindo e nos últimos trinta minutos minha bexiga já estava gritando um ultimato.

Da conversa participaram os escritores Cristóvão Tezza, Noemi Jaffe e Patrícia Melo, com a mediação da jornalista Raquel Cozer.

Uma das coisas mais bacanas que rolou por lá foi a tradução simultânea para a Linguagem Brasileira de Sinais (LIBRAS).
Não tão bacana foi quando o microfone da Noemi Jaffe não funcionou.

Sobre os palestrantes e a mediadora...
-Cristóvão Tezza é brasileiro, nascido em Lajes-SC, em 21 de Agosto de 1952. Escreve quinzenalmente para Folha de S. Paulo e crônicas para o Gazeta do Povo (GO). Foi professor por mais de 20 anos e tem dez livros publicados.

-Noemi Jaffe é brasileira, nascida em São Paulo-SP, no ano de 1962. É crítica literária e escreve para Folha de S. Paulo. Foi professora por mais de 20 anos e tem sete livros publicados.

-Patrícia Melo é brasileira, nascida em Assis-SP, em 2 de Outubro de 1962. Ficou mais conhecida por suas ficções policiais. Seu romance O Matador foi adaptado para o cinema por Rubem Fonseca (O Homem do Ano - 2003). Tem nove livros publicados.

-Raquel Cozer é brasileira, nascida em Petrópolis-RJ. Foi assessora de imprensa na Prefeitura do Rio de Janeiro, é jornalista literária e blogueira. Atualmente é repórter e colunista do caderno Ilustrada no Folha de S. Paulo.

Senhor Escritor, quem é você?
Uma coisa ficou certa nessa palestra: o escritor deve se respeitar. E quando digo isso, estou citando o post O Poder de Um Nome que falava sobre a transformação de novos autores em "modelinhos", daquele tipo participativo, que vive em panelinhas e se faz de "arroz de festa".

Cristóvão comentou que cada escritor tem uma personalidade e que isso deve ser respeitado, e não que precise existir um comportamento pré-estabelecido ou forçado. A plateia chegou a falar sobre um barraco que aconteceu na 22ª edição da Bienal, porém, mesmo com a insistência divertida e sábia da jornalista Raquel Cozer de querer nomes, ninguém foi citado.

Continuando sobre o assunto, Cristóvão disse que costuma procurar saber antes com quem vai participar de tal "mesa" de discussão e cita como exemplo o autor Fabrício Carpinejar (com quem participou uma vez), que é mais do tipo showman, extrovertido, enquanto ele já se considera uma pessoa mais quieta.
Normalmente eles são convidados para debates sem saber o tema (o que não foi o caso desta palestra).

Os três concordaram que atualmente o escritor é mais ouvido do que lido, principalmente por conta das redes sociais onde há mais interação com o leitor. Enquanto Noemi e Patrícia usam bastante o Facebook para se comunicar, Cristóvão contou que o seu perfil nesta rede é cuidado por seu sobrinho. Ali ele só posta novidades e notícias, enquanto o particular fica apenas para amigos e família.


O trio explica que esse "boom" de participação de escritores em eventos como a Bienal está mais forte hoje, quando temos mais "feiras de livros" do que antes. E isso é bem recente!

Cristóvão cita o convite que recebeu para ser cronista do Gazeta do Povo (de Goiás). Ele diz que os jornalistas falam mais sobre o ser humano e dão sua opinião, querendo que os escritores façam o mesmo, quando nem sempre estão preparados para isso. O autor se assume um romancista e não um "escritor de opinião".

Eles explicam que o processo de criação é muito diferente de dar opinião.
Por mais que pareça algo simples ou com certa similaridade, é preciso lembrar que nem sempre o que o personagem diz na história deve ser considerado opinião do próprio autor, mesmo que para Cristóvão os escritores sejam "covardes", já que muitas vezes também terceirizam sua opinião (usando um personagem).
Pessoal entrando para acompanhar a palestra sobre o papel do escritor hoje no Brasil.
Essa é uma das reclamações mais recorrentes que vejo entre o público que assiste novela. Eles não aceitam, por exemplo, que exista na obra pais como Magnólia e Severo (Império - Globo) que deem tantos conselhos absurdos aos filhos, contudo, ali está uma realidade muitas vezes ignorada pelo público. Uma novela é uma ficção que fala sobre o nosso mundo e que não tem nenhuma obrigação em trazer apenas personagens corretos e puros para que as pessoas de casa se identifiquem. Assim como temos gente ruim aqui fora, na novela também é preciso mostrar que o mundo não é colorido.

Cristóvão ainda diz que "o brasileiro não lida bem com a diferença" e essa é uma verdade.

Segundo eles, o escritor não deve se limitar artisticamente por causa da opinião de seus personagens. E eu acredito que isso normalmente não seja levado em conta pela maioria do público.

Para citar rapidamente um exemplo: toda a manifestação negativa, principalmente de negros, contra a série Sexo e as Negas de Miguel Falabella para a Globo. Independente da importância dos direitos dos negros, da infelicidade que é o preconceito e da ignorância de quem não os respeita, como você acha que pode proibir uma pessoa de viver como quiser? Penso nas personagens da série como seres humanos que pagam suas próprias contas e não devem nada a ninguém, por isso logo penso: qual o problema em querer ir para a balada e ficar com alguém?
A imagem que passa é sexualizada demais? A impressão que os outros têm é ruim? E quanto as nossas queridas negras que trabalham de sol a sol num regime maçante que o brasileiro está exposto (pense no trânsito, no número de conduções, no horário que chegam e levantam para trabalhar) e querem ter algum prazer na vida? Quem sou eu para impedir alguém de se divertir?

Cada um vive a vida da forma que acha melhor e o meu julgamento não deve servir de ordem para os outros.
"Ei, faça assim, porque eu quero! Aja assim, porque eu acho que é o correto!"
Se a pessoa quer ser daquele jeito, a vida é dela e cabe somente a ela escolher o caminho.

Ao menos, eu gostaria de ser respeitada dessa forma, independente de não ser negra, mas de ser mulher.
Não estou defendendo a série, estou defendendo o direito da liberdade de comportamento (que não traga nenhum risco à saúde, aos outros ou fira alguma lei).

Muito bem, vamos voltar à palestra que o post é sobre isso.

"A literatura é um exercício de resistência", disse Patrícia. E eu concordo. Além de funcionar como uma ótima terapia (como rapidamente comentado pelos três), a literatura é uma forma de crítica - se o autor assim desejar - e uma das artes que permaneceu gritando, sempre de alguma forma, durante a Ditadura Militar no Brasil, sejam pelas poesias ou pelas receitas de bolo que nunca davam certo e saíam no lugar de reportagens censuradas pelos militares. Outra frase que cai como uma luva para complementar a citada, é: "a literatura é desalienante" (dito por Noemi).
Tantos livros que lemos que abrem nossas mentes, nos fazem pensar sobre determinada situação ou comportamento, nos mudam de alguma forma...


Uma pergunta surgiu: toda pessoa pública tem a obrigação de dar a sua opinião sobre tudo?

EU acho que não.
E o escritor está incluso, visto que, é uma pessoa pública, logo, um formador de opinião.
O trio acredita que isso vai de cada um.

Patrícia e Noemi citaram principalmente a situação anti-semita por causa da guerra entre Israel e Palestina (ambas são judias).

"É uma guerra entre o certo e o certo", comentou Patrícia, que assume se manifestar bastante sobre o assunto, inclusive nas redes sociais, enquanto a colega prefere deixar que os outros (que às vezes compartilham de opiniões parecidas) se manifestem.

Patrícia contou que exigiam muito da Clarice Lispector para que ela se manifestasse sobre determinados assuntos (já que ela era alienada em sua literatura). Há muita confusão entre personagem e escritor, como se fossem um só. Essa visão prejudica o entendimento de que uma obra fictícia não apresenta exatamente a opinião de seu criador.
"Nem tudo é autobiográfico, sabe?", escreve a Kimono em seu post.

A platéia perguntou se os escritores cuidavam do que diziam nas redes sociais.
Noemi diz que se contém. "O silêncio diz muita coisa".
E ainda contou que um comentário seu durante o fatídico jogo da Alemanha contra o Brasil na Copa recebeu muitos comentários negativos por não ter sido levado em conta como "simples desabafo".

Os três também foram questionados sobre a exigência dos autores na participação de eventos. Cristóvão disse que sua editora nunca exigiu.
Se me permitem um parecer, acho desnecessário a obrigatoriedade, tirando lançamentos e noites de autógrafo. Ainda assim, é um assunto que deve ser discutido entre as partes durante a relação "eu escrevo - eu lanço o seu livro".

Noemi comentou sobre a razão de os escritores brasileiros não serem tão famosos quanto os lá de fora. O fato é que nos exterior a educação é mais valorizada, por isso há mais eventos literários e maior visibilidade do autor.

E por fim...
"Eu sou autoexigente com a minha escrita", disse Cristóvão.
Meu caro, todo mundo que se chama de escritor também deveria ser.
O problema é quando o perfeccionismo fica nos rondando.

Leitores X Escritores
Os leitores costumam criar uma enorme expectativa, além de uma intensa curiosidade, antes de conhecer o autor e em algumas vezes acaba se decepcionando principalmente com a aparência e personalidade dele.

Os presentes acabaram escutando o relato de uma maranhense da platéia que contou uma verdadeira novela para encontrar seu escritor favorito. Ela se apaixonou por seus livros e depois manteve também uma paixão platônica por ele, fazendo de tudo para encontrá-lo, inclusive atazanando o pobre na frente de seu prédio no Rio de Janeiro (entrando em contato com a família, com o escritor, se correspondendo por e-mail com ele). Foi engraçado, mas confesso que stalker é um negócio que me mete medo. Eu não iria curtir esse tipo de aproximação.

O trio comentou que existe certa idolatria por parte dos leitores, como se o escritor fosse uma pessoa inalcançável, sempre em seu altar de mármore e dono dos melhores pensamentos e escritos.

Noemi, depois de escutar o relato da moça, contou que quando foi conhecer Ziraldo, conversou com uma amiga e disse que estava nervosa, pois gostava muito do trabalho dele. A amiga simplesmente disse: "Noemi, pensa que ele faz cocô".
Todos caíram na risada, porém, algo tão óbvio às vezes passa despercebido quando jogamos nossas expectativas em arranha-céus.

Os escritores são pessoas de carne e osso, igual a mim, igual a você.
Tendo isso em mente, juro, as coisas facilitam muito... Ou eu teria gaguejado pra caramba na frente do Cassius. XD

Kimono - Mais perdida que cupim em barco de madeira!
Pensando se um dia sentarei em uma dessas cadeiras para falar sobre quão louco é fazer post de madrugada quando tem compromisso no outro dia.
Foi uma ótima experiência participar disso que chamo de palestra e que também pode atender pelos nomes de: debate, mesa de discussão, bate-papo.
Tentarei participar de mais na próxima edição e espero sinceramente conseguir.
Deu um trabalho enorme ficar anotando tudo no caderno (não tenho gravador), mas estou satisfeita com o resultado.

Além disso o tema foi bastante interessante, principalmente para alguém que vive se intitulando por aí como "escritora". Reforcei os meus conceitos sobre o comportamento de um escritor e curti muito ver de perto tanta gente talentosa e inteligente!

Não percam! Na próxima semana tem a palestra mais aguardada de todas!

Ok, ok... A segunda e última palestra, né? Afinal, só consegui assistir duas mesmo...
Enfim, próxima semana tem o bate-papo com Cassius Medauar e Heitor Pitombo aqui no blog! Gosta de mangás e HQ's? Então fica esperto!

Encerro com a sábia frase de Cristóvão Tezza: "O que define o escritor é o que ele escreve".

Nos vemos no próximo post! o/

Fonte:
Portal dos Jornalistas (sobre Raquel Cozer) - Wikipedia - Informações dadas na própria palestra

Por Kimono Vermelho (18/09/2014)

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