sexta-feira, 5 de setembro de 2014

As coisas que a vida fez questão de me ensinar

A última vez que fiz uma resenha de um livro foi em 2012 e, nobres leitores, pensem em uma pessoa que quis arrancar o próprio cérebro com as mãos por conta da obra analisada. A vida até então parecia um verdadeiro fracasso, porém, encontrei forças para continuar e cá está uma resenha que me deu gosto fazer!!!

Resenha número: 03
Livro: As coisas que a vida esqueceu de me ensinar
Autor: Thiago Mendes
Este livro é: Brasileiro
Ano de publicação: 2009 - 2ª Edição
Editora: R&F Editora
Páginas: 94
Em quantos dias eu li: Um dia (em duas horas com intervalos de tempo)

CONSELHO IMPORTANTE!!!: Se você não leu este livro, recomendo que leia. Vou tentar não soltar tantas informações relevantes sobre o seu conteúdo [SPOILERS].
Lembrando que esta resenha apresenta uma opinião pessoal, que assim como a sua, pode agradar ou não. Fique ciente das consequências.


* ~ * ~ *

Existe um lugar mágico chamado Bienal do Livro onde sempre encontro bons títulos para ler e que em alguns casos me viciam, como a trama adolescente de Marcia Kupstas em O Clube do Beijo.

Na 23ª edição da "feira dos livros", me deparei com um estande razoavelmente pequeno (se comparado aos das grandes e famosas editoras) por conta do olhar apurado de minha adorável assistente do blog para eventos. Ô criatura dos olhos de lince!


Lá conheci o simpático e inteligente autor do livro que resenharei neste post.
Já pensaram como é difícil encontrar o escritor e sua obra, ali disponíveis ao público? Fico pensando no quão injusto é o nosso país por não valorizar o talento literário que temos, vangloriando a farinha vencida do mesmo saco e os estrangeiros.

Brasil, bora tomar um pouco de vergonha e beber mais da fonte de seu povo! Vocês parecem não conhecer nem um terço da mágica que são capazes de fazer!

Além de As coisas que a vida esqueceu de me ensinar, também adquiri o Diário de um Soldado do mesmo autor e que em breve ganhará um texto só para ele.

Se você quiser descobrir mais sobre a Bienal do Livro de 2014 e os meus "achados" brasileiros, visite o Dia 1, Dia 2 e Dia 3 da cobertura do blog no evento!

Agora vamos falar do que interessa: RESENHA!

Lembram? "Eu sou péssima com sinopses". Mas vamos fingir que eu entendo dessa bagaça, ok?

Sinopse por Kimono Vermelho: No seu aniversário de vinte e sete anos, Dináh vê sua vida virada de cabeça para baixo por um estranho não tão desconhecido de seu coração. Essa grande mudança faz com que a mulher busque os sinais que o universo começa a lhe mostrar quando ela finalmente decide abrir os olhos.

Sobre a história
Temos uma protagonista, personagens que a ajudam a "crescer" durante a trama e seus interesses amorosos (o estranho do café e o menino da carta).


A primeira impressão que tive ao ler é que a história careceu de uma melhor elaboração. Não que seja ruim você simplesmente escrever o que vem à cabeça, porém, é preciso notar que um bom livro tem personagens mais profundos, mesmo que eu compreenda o "papel" que os coadjuvantes tiveram na vida de Dináh. Ainda assim, todos foram muito superficiais.

Quando eu falo de profundeza, estou pedindo por um iceberg abaixo do oceano, e não um pedacinho de gelo desprendido de algo maior. Por mais que o personagem não seja "importante", ele também merece uma história, uma vida, a não ser que todas as mudanças pelas quais Dináh passou tenham sido obra única e exclusiva de Deus, divindade repetida mais vezes do que eu esperava.

Apesar de ter minha religiosidade e acreditar em Deus, fico preocupada quando uma trama o repete diversas vezes sem que ele de fato seja um personagem. Não sei, costumo pensar também no público fora do nicho, como é o caso dos ateus e aqueles que têm outro tipo de fé. Acredito que quanto mais incluirmos o público, menos fechados ficamos em certos grupos.
Não que isso torne o livro ruim, mas me preocupa tanta citação e até trecho da Bíblia quando o leitor pode não ser dessa religião ou não ter uma.

Como os únicos livros de autoajuda que eu tinha lido eram do Augusto Cury (trilogia de O Vendedor de Sonhos), foi o único que pude usar como comparação e, olha, lembra bastante. Não sei se todos do gênero são iguais, contudo, As coisas que a vida esqueceu de me ensinar teve uma semelhança interessante com o citado acima, seja no conjunto ou quando Maria fala sobre os poderosos que não têm as rédeas da própria vida e ficam presos ao que os outros acham que eles devem fazer ou ser.

O livro é dividido em onze partes/capítulos e em alguns deles temos personagens centrais que vão levar Dináh ao entendimento dessa nova vida, ou rumo, que tomou. Todos são ligados à arte, tirando Maria que é a pedinte e não está diretamente conectada a um tipo de arte. Entre eles, temos Dona Izaíra com a pintura, o senhor de boina com a música, Loáh com a dança, Boris com o teatro e LeviAmon com a escrita.




Todos eles servem como "quebra" de conceito e reestruturação da protagonista, algo que aconteceu, ao meu ver, muito rápido e sem muita preparação. De repente a jovem não se sente bem em uma banca de revistas e é ajudada por um desconhecido que a leva para conhecer um "lugar especial".
Pode-se interpretar também que aquele seria um sinal de uma "rachadura" em sua vida, talvez dentro de uma redoma "errada", ditada e julgada pelos outros, pelo que a sociedade acha certo. Afinal, seu nome é Dináh e, segundo a história, significa "julgada".

Ainda que a trama tenha carecido de certos cuidados em sua elaboração e escrita, a mensagem é bem interessante.
A personagem não se liberta totalmente das correntes da sociedade, contudo, vê uma forma de abrir sua visão para novos horizontes e recebe grandes conselhos.

Se seguíssemos mais os nossos corações e intuições, se não dependêssemos da opinião/julgamento dos outros para viver, se pudéssemos escolher a felicidade mesmo com os obstáculos da vida.
Eu adoraria sugerir esse livro para pelo menos umas cinco pessoas, entre conhecidos virtuais e amigos presentes. Há tanto que pode-se tirar da leitura, que acredito que faria muito bem a quem resolvesse quebrar de vez a redoma rachada para renascer mais forte, com novas convicções, para o mundo.

No entanto, preciso acrescentar uma ressalva.
As pessoas vivem dizendo que querem mudar, só que morrem de medo e esperam sempre um empurrãozinho de fora para que as coisas aconteçam. Sem falar que ninguém está realmente disposto a pagar pelas consequências de seus atos, normalmente voltando ao que era ou arranjando desculpas.
Os que decidem que é hora de mudar de verdade e aguentam a porrada que a sociedade dá por não entendê-los, encontram um desprendimento e tranquilidade típicos de uma Dona Izaíra, Loáh, Boris, Maria.

E falando na nossa boa senhora dona da lanchonete e primeira conselheira, quando Izaíra diz que na infância podemos pintar nossa tela, nossa vida, com cores e quando adultos só nos resta o preto e o branco como se fosse algo ruim, eu tendo a discordar e a fazer mais um adendo.

Ainda que o colorido represente a inocência e a vivacidade de uma criança, acredito que não é porque perdemos esses "olhos puros" que apenas nos sobram cores monocromáticas. É como se, apesar de novos horizontes abertos, ainda nos recolhêssemos a uma vida menos alegre e mais sofredora. O fato de termos deixado certa "ignorância" de lado, não quer dizer que tenhamos abandonado as cores da vida, ao menos na minha visão.

Minha tela não é monocromática, acho que isso é escolha própria de cada um. Tenho belos tons de vermelho, azul, verde e amarelo, mesmo não possuindo mais a inocência de uma criança, e sim a inteligência de um adulto em construir o que deseja para a vida.

E falando nisso, percebo que a protagonista fica muito presa no passado, no que não fez ou deixou de fazer, sendo que está viva e pode muito bem seguir em frente como melhor achar. Acabo me lembrando das pessoas que não conseguem superar o passado e aprender com ele para tornar seu presente mais vibrante.

Se eu fosse escritora de autoajuda, a treta estaria formada.

Acho que a grande sacada do livro é convidar indiretamente o leitor a pensar sobre a vida, fazer esse exercício terrível que deixa muitos de cabelo em pé, já que fazer silêncio e se escutar pode ser mais tenebroso do que pensar sobre a existência de um inferno lá embaixo.

Equilíbrio em corda bamba
Personagens como a Dona Izaíra ou Miguel que apareceram tão pouco e foram tão marcantes fizeram um pouco de falta durante o grosso da trama.

A protagonista não é lá das melhores e a identificação se dá apenas por conta de alguns momentos específicos, porque nem a pau eu seria louca de aceitar conversar numa praça deserta com um senhor que mal conheço. Na boa, às vezes tive a impressão que Dináh era doida de pedra ou queria se sentir desejada a todo tempo, mesmo não tendo interesse amoroso pelo homem.

Outra coisa...
Ó, não leve a mal, senhor autor, mas... O que é LeviAmon?
Não consegui conter o riso ao ler o nome, ainda mais por lembrar do querido e carente Amon, djinn de Ali Babá em Magi. Não deu para desvincular.
Sem falar que Amon também é o nome de uma divindade egípcia e, junto com Boris, são os únicos nomes não-bíblicos, digamos assim. Dináh, Loáh (Eloá), Maria, Miguel e Levi são participantes do livro sagrado dos cristãos.

Seria LeviAmon um homem de duas caras? O divino e o profano?
Vocês preferem que eu responda e acabe dando um spoiler? Melhor não.

Tirando essa minha pataquada com o djinn, senti que o personagem foi usado para criticar autores que falam sobre felicidade (ou outros temas de autoajuda) de forma leviana, apenas para ganhar dinheiro, e são aplaudidos como se fossem gênios.

Além disso temos o questionamento de Boris sobre Deus e a maldade. Por que o grande criador do mundo faria algo tão ruim existir? E ainda comentou sobre a "expulsão" de Adão e Eva do Paraíso de uma forma interessante.

O plot twist fica para o final, que é bem bonitinho, mesmo carecendo de um pouco mais de epílogo talvez.

Mudando um pouco o foco, as minhas suposições sobre as artes e LeviAmon estavam corretas. O chato de estar habituada com alguns clichês da literatura é que você acaba adivinhando certas coisas antes da hora.

E antes que eu esqueça, achei uma graça o inception sobre O Pastor de Zoar (obra do mesmo autor) citada por Dináh apenas em sinopse durante uma conversa.

Sobre "detalhes técnicos"
Acabei percebendo alguns erros de ortografia e gramática, além de repetições massivas da palavra "mas". O autor poderia ter usado mais sinônimos, o que deixou a impressão de falta de revisão.


E falando em repetição, algumas sentenças e termos foram usados exaustivamente, por exemplo: "valer a pena".
Escrever não é só desaguar o que está em sua cabeça, e sim criar do emaranhado de ideias e linhas uma história. Ou seja, um escritor também deve ter domínio sobre a estrutura da escrita, ver como pode modificar uma frase que mesmo transmitindo a mensagem correta esteja com cacófatos ou termos próximos com leituras parecidas. Escrever além de uma arte, é sim uma ciência.




Senti falta de mais descrições.
Um erro que o autor comete, e eu me incluo também, é dar prioridade aos diálogos, às vezes enormes e com pausas que podem quebrar o clima do ensinamento, e ignorar a importância das descrições. Reforço aqui que faltou revisão e uma melhor elaboração da trama (a não ser que tenha sido proposital, o que eu acho bem arriscado).

A narração é feita em 1ª pessoa por uma mulher.
Eu amo quando os autores escolhem esse tipo de narração e não o fazem com o personagem do mesmo sexo que ele. Mostra um jogo de cintura e inteligência que nem todos os que se dizem escritores têm capacidade. É louvável.

Algumas partes ficaram realmente confusas, como na hora em que o ônibus onde Dináh está, para (mas não fica claro que ela desceu) e de repente a moça é atropelada.

O uso dos traços no meio de narração ou fala me deixou um pouco confusa. Pode ser o estilo do autor, mas em boa parte das vezes não dava para saber quando ele tinha começado e terminado aquele “adendo”. E nas falas o traço é o que separa os dizeres dos personagens e do narrador, se o escritor usa esse detalhe sem cuidado pode confundir o leitor e cansá-lo.

Sobre o autor
É uma pessoa carismática, educada e de boa lábia (não no mau sentido, por favor).

Vai, me fazer comprar três livros que não estavam na minha lista de desejos foi inteligente, isso não dá para negar (mesmo que a culpa ainda recaia na assistente do blog para eventos que queria comprar tudo o que via pela frente). Ainda assim o mérito maior é dele.

Não encontrei muitas informações sobre o autor na internet, como idade, onde nasceu e tudo aquilo que vemos em Wikipedia's por aí.
O que deu para averiguar foi que:

-Além de escritor, ele é jornalista e radialista;
-Escreve em diversas colunas de jornais;
-É um dos escritores mais lidos do Centro-Oeste (segundo a orelha em seu livro);
-É casado e têm filhos;
-É pastor.

E aí eu comecei a entender as tantas citações a Deus e de um trecho da Bíblia.
Não, eu não tenho nada contra evangélicos desde que eles também não tenham nada contra mim. Só que dá para entender um pouco mais sobre o livro sabendo dessa informação.


Se quiser falar com o autor, seus meios de comunicação são estes (todos tirados da orelha do livro resenhado):
- soldadodapazsp@gmail.com
- twitter.com/soldado_da_paz
- facebook.com/thiagomendesbrasil
- www.soldadodapaz.com.br

As coisas que a vida me contou ao passar dos anos
Há muitas boas lições no livro para quem está com a vida estagnada e não sabe que rumo tomar. Reforço que se ele tivesse sido melhor elaborado e gastado mais páginas, poderia ter se tornado algo realmente incrível.

O que Dináh começou a aprender aos vinte e sete anos, eu já sabia aos dezoito, então não tive novidades lendo a trama, apenas várias balançadas de cabeça concordando com alguns pontos de vista dos personagens e momentos de identificação com eles.

O bom é que depois de duas resenhas tenebrosas sobre mulheres narrando em 1ª pessoa e tramas mais vagabundas que aquele pano de chão que limpa a cozinha engordurada, finalmente pude ler algo mais curto, menos imbecil e incomparavelmente interessante. Além, claro, de ser uma obra escrita por um brasileiro.


Vou dar um tempo entre uma obra e outra de Thiago Mendes, ou seja, esperem um pouco para saber a minha opinião sobre Diário de um Soldado.
A próxima resenha será também de um livro adquirido na Bienal do Livro.

Por Kimono Vermelho (05/09/2014)

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